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sábado, 1 de outubro de 2011

Adicção: vidas duplas repletas de singularidade e secretismo


Gente, achei essa reportagem super interessante!! Um ótimo final de semana a todos!! Continuamos limpos e serenos, ah parei de contar os dias... viva e deixe viver não é???



A maioria dos adictos às substancias psicoactivas (licitas e/ou ilícitas) e/ou comportamentos (jogo, relações, compras - shopaholics, sexo, distúrbio alimentar, shoplifting - furto) permanecem “presos à teia” da Adicção apesar das consequências nefastas e clinicamente significativas, no seu dia-a-dia, (por ex. negação, vergonha, medo, sentimentos de culpa, ressentimentos) isto é, perdem o controlo nas mais variadas áreas da sua vida ex. família, trabalho, saúde, problemas legais ficando assim limitados na ajuda disponível.

O que é que mantém os adictos/as doentes?

Gostaria de expor alguns casos e explorar os factores que contribuem para a progressão da doença, para a alienação de valores e o desfasamento entre a realidade e a Adicção. A Adicção é uma doença. A maioria dos adictos reconhece que algo está errado, todavia censura os sinais evidentes e reais do desgoverno recorrendo a todo um conjunto de mecanismos psicológicos que o mantém doente e centrado no prazer imediato, no isolamento, na obsessão e compulsividade e na ilusão do controlo. Muitos afirmam “Eu sei que estou mal, Mas…”
O que é que mantém estes indivíduos doentes e disfuncionais ao invés de pedir ajuda? São imensos os factores e aqueles que gostaria de realçar é a Negação, a Vergonha e o Estigma associado ao comportamento adictivo.

Qualquer semelhança com estes casos é pura coincidência. Os dados destas pessoas foram alterados.

Carlos. 47 Anos, casado e com 2 filhos. Adicto ao jogo. Profissão: Gerente Bancário.
Consequências da Adicção. O Carlos joga no casino com o dinheiro do seu ordenado (totalidade), com o dinheiro da esposa, e por vezes aquele que é para pagar despesas da casa e da escola dos filhos. Através de um esquema fraudulento e falsificação utiliza o dinheiro de três clientes do banco. A mulher do Carlos, desesperada, adopta o silêncio, mantendo secreto a doença do marido com receio de represálias e que este a abandone. A mulher e o Carlos acumulam dívidas no total de 16mil euros. Os pais do Carlos assim como os sogros ignoram a Adicção ao jogo. Os filhos do casal têm problemas no rendimento escolar (agressividade e impulsividade). Nos encontros sociais esta família aparenta felicidade e união.


Júlia 33 anos, solteira, Distúrbio Alimentar. Profissão: Professora de Educação Física
Consequências da Adicção. Vive com os pais. Não tem tempo para comer, isto é, só toma o pequeno-almoço (iogurte magro e uma peça de fruta), não almoça e no final do dia, quando regressa a casa, está esfomeada onde ingere alimentos (ingestão compulsiva) altamente calóricos (ex. doces, fritos e salgados). Por vezes adopta o jejum provocado e prolongado onde só ingere líquidos, como uma forma de controlar o apetite e assim emagrever. O assunto da comida é a sua principal preocupação diária (obsessão), o que vai comer, o que não come, quando vai comer e com quem vai comer. Sofre oscilações drásticas de humor, por exemplo depressão. Desde os 18 anos que faz dietas restritivas. Após períodos de fome e privação adopta comportamentos compulsivos (ex. binge eating, voracidade e empanturrar-se, ingestão compulsiva de alimentos) e depois provoca o vómito (purgação). Sente medo (pânico) de engordar, considera que está muita gorda e utiliza o exercício físico, excessivo, para não engordar. Nos encontros sociais aparenta ser uma pessoa saudável, pelo seu aspecto físico, e que trata bem da sua saúde a nível da nutrição.

José 40 anos, casado com 3 filhos, Adicto ao Sexo. Profissão: Medico.
Consequências da Adicção. Na rua, no trabalho, no ginásio, nas viagens o sexo é uma preocupação intensa e diária. A esposa tem conhecimento da adicção do José, afirma manter-se na relação por causa dos filhos. Já não existe relação sexual entre ambos há dois anos. O José justifica o seu “problema” afirmando que como não tem sexo em casa precisa de recorrer a outras mulheres. Mantém assédio sexual prolongado a duas doentes no seu consultório, onde culminou com uma relação sexual com uma delas. Grande parte do seu tempo livre dedica à pornografia na Internet, sites de relacionamentos onde gasta centenas de euros/mês e paralelamente utiliza a masturbação frequente (10 vezes por dia) no consultório e em casa. Mantém uma relação paralela há 3 anos com uma prostituta. Sofre de ansiedade, depressão e automedica-se com tranquilizantes. A mulher procura, ansiosamente, ocultar a adicção do pai aos três filhos e ao resto da família. O José não tem tempo disponível para a sua família. Nos encontros sociais esta família aparenta felicidade e união.

Maria 35 anos, solteira, Adicta às drogas lícitas e ilícitas. Profissão: Advogada
Consequências da Adicção: Usa cocaína durante o dia, afirma que assim consegue manter a concentração para o trabalho e à noite abusa do álcool. Para dormir toma tranquilizantes (benzodiazepinas) receitado pelo medico de família. A Maria rouba dinheiro aos seus colegas no escritório. O seu humor sofre oscilações entre ansiedade e depressão. Tem vários processos, movidos por clientes, na Ordem dos Advogados. Diariamente conduz a sua viatura sob o efeito de drogas e/ou álcool. Os pais da Maria, consideram que o problema das drogas tem a ver com o estilo de vida stressado da filha, sendo assim, a Maria conseguiu pedir aos pais aproximadamente 20 mil euros, ao longo do último ano, para a sua dependência. Nos encontros sociais aparenta ser uma pessoa divertida, extrovertida e confiante.

Xavier 50 anos, casado com 5 filhos. Adicto ao álcool. Profissão: Politico.
Consequências da Adicção. Negligência a educação dos filhos porque não têm paciência e ou disponibilidade emocional, ex. depressão. O Xavier toma antidepressivos, receitados pelo seu médico, de forma a atenuar, sem efeito, os efeitos do alcoolismo. Já não dorme no mesmo quarto que a mulher. Por vezes a esposa do Xavier encontra garrafas escondidas na garagem ou na arrecadação e no sótão. Os filhos raramente levam os amigos a casa para evitar problemas e evitarem sentirem embaraço por causa do estado avançado de embriaguez do pai à noite. Na família do Xavier não se fala sobre o alcoolismo. Como não bebe durante o dia, com receio de perder o controlo no escritório, aguarda ansiosamente para chegar à noite casa e beber sozinho, segundo afirma, para relaxar da pressão diária demasiado excessiva. Esta família evita o convívio porque o Xavier fica embriagado expondo a esposa e os filhos a situações demasiado embaraçosas. Por vezes, o Xavier conduz sob o efeito do álcool. Nos encontros sociais esta família aparenta felicidade e união.

Isabel 32 anos. Solteira. Profissão: Enfermeira. Relação de dependência (Codependência)
Consequências da Adicção: Vive com os pais e namora com Artur, um adicto às drogas ilícitas há quatro anos, que está desempregado há dois anosA Isabel, com vergonha, oculta a adicção do namorado à família e amigos. Apesar de ter um ordenado razoável chega a meio do mês já não tem dinheiro porque é todo para o consumo das drogas lícitas e ilícitas do Artur. Acumula dividas para conseguir suportar as despesas. Ao longo da vida, a Isabel, procurou estar disposta a reparar os danos nas vidas das outras pessoas, como algo perfeitamente normal, todavia negligência, sacrifica as suas necessidades e não expõe os seus sentimentos/emoções dolorosas e crises às outras pessoas (necessidades emocionais). Sofre de ansiedade, isolamento, cansaço, baixa auto-estima e dificuldades em impor e respeitar limites nos relacionamentos. Qualquer problema na família a Isabel assume as responsabilidades e os falhanços, sozinha. O pai da Isabel foi alcoólico durante 40 anos e a mãe foi uma pessoa passiva e negligente. A Isabel considera-se uma vítima da doença alheia e não sabe como interromper este comportamento disfuncional. No pouco tempo que resta ainda faz voluntariado em instituições de caridade. Nos encontros sociais aparenta ser uma pessoa altruísta, disponível e dedicada a ajudar o próximo.

Teresa 40 anos. Casada com um filho. Profissão: Engenheira química. Adictashoplifting (furto) e Compras.
Consequências da Adicção: Durante os intervalos ou a hora do almoço a Teresa rouba dinheiro dos gabinetes dos seus colegas. Todavia, recebe um ordenado mensal acima da media, a rondar os 2.500 €. Quando vai às compras às lojas, afirma para si mesma, através de promessas e juras, que não vai roubar nada, porque não precisa e o risco de ser “apanhada” é elevado, mas quando fica exposta aos artigos nas prateleiras, longe dos olhares, não resiste ao desejo irresistível e poderoso. Gasta mais de metade do orçamento da casa em compras (roupas, sapatos, perfumes). Segundo afirma, o marido, engenheiro civil, suspeita de algo, mas é um assunto que não se aborda. Um dia, foi às compras ao supermercado com o filho e num dos corredores não resistiu a roubar um artigo, às escondidas, todavia à saída o segurança convidou-os a ir uma sala para ser revistada, desesperada, implorou ao segurança que devolvia o artigo roubado para que o filho não presencia-se. O segurança acedeu ao pedido. Nos encontros sociais esta família aparenta felicidade e união.

Como é que podemos entender as consequências negativas da Adicção?


O sofrimento que o Carlos, a Júlia, o José, a Maria, o Xavier, a Isabel e a Teresa sentem é o mecanismo que despoleta o desejo irresistível de voltar a actuar no prazer imediato, apesar das consequências negativas. Esta oscilação do humor proporciona a ilusão de ter saciado uma necessidade. Qualquer ser humano quando está em dor procura atenuar esse sintoma, todavia nos indivíduos adictos (re) agem com base na sua dependência.

Para o indivíduo doente, enfrentar a realidade perante si mesmo e as outras pessoas é algo da qual vai perdendo competências e recursos, paralelamente ao agravamento dos sintomas da adicção. Não permite críticas ou opiniões em relação aos seus comportamentos. Aquilo que o mantém doente é a vergonha, a negação, a fantasia - lógica adictiva, o isolamento, agir nas emoções e controlar (acting out), medo, ressentimentos desmedido impedindo-o de interromper a progressão da doença e iniciar a sua recuperação (Ciclo Vicioso Adictivo). É preferível manter o comportamento problema, alimentando a ilusão do controlo e agindo no prazer imediato, do que revelar e enfrentar a realidade dolorosa (Vida Dupla). Na maioria dos casos, a progressão da Adicção só é possível interromper através de uma intervenção com o apoio da família.

Podemos conduzir um cavalo para dentro de agua, mas não conseguimos obriga-lo a beber.”

Fonte:  
http://recuperardasdependencias.blogs.sapo.pt/43921.html#cutid1

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